Lembranças povoam meu peito. Algumas boas, outras ruins. Algumas tristes, mas a maioria delas muito, muito engraçadas. Meu pai era uma pessoa dotada de um profundo senso de humor.A maior parte das lembranças que guardo estão envoltas em risos, gargalhadas. Não que não fosse sério; era-o até demais. Hoje percebo, no entanto, que o bom humor parece ter sido sua opção de vida.
Recordo-me de tantas passagens, de tantos ensinamentos. Concordo inteiramente com o que se diz sobre ensinar com as próprias atitudes e não com palavras. Ele era um homem profundamente bom. Não me lembro de ter presenciado alguma atitude maldosa de sua parte. Não era alienado; tinha senso crítico e por vezes externalizava opiniões que não eram do agrado geral. No entanto, não o fazia com maldade, nunca com o intuito de ferir alguém. Aprendemos desde sempre que podemos manter nossos pontos de vista sem ridicularizar ou diminuir aqueles que pensam diferente de nós.
Era uma pessoa integra, honesta, batalhadora. Tentou, a sua maneira, nos deixar o que tinha de melhor. Apesar de ter sido criado numa situação extremamente desfavorável, livros sempre foram prioridade na minha casa. Nós os tivemos desde muito antes de aprender a ler. Sempre fomos estimuladas a aprender, a estudar, a dar o melhor de nós em qualquer situação.
Não que não tivesse defeitos; ele os tinha, e muitos. As vezes suas atitudes nos colocavam em lados opostos do campo de batalha. Cansei de brigar com ele, de questioná-lo. Sei que fui dura, que o magoei, assim como ele também fez o mesmo comigo. Entretanto, posso afirmar que as batalhas travadas não deixaram marcas tão profundas quanto os dias de festa.
O exemplo de vida mais significativo que tive dele deu-se exatamente quando ele não estava presente. Ou estava, mas de forma passiva, por assim dizer. Durante as horas que antecederam nossa despedida final, dezenas de pessoas se aproximaram de mim e me contaram de coisas que ele havia feito por elas, coisas das quais eu nem suspeitava. Fiquei impressionada ao ver o quanto ele foi capaz de auxiliar, anos a fio, uma infinidade de pessoas, das mais diversas formas que se possa imaginar. E nunca falou absolutamente nada sobre isso.
Hoje senti uma saudade imensa. Tive necessidade de tirar a colcha de retalhos de dentro do armário. Envolvi-me nela, a exemplo do que ele fazia quando eu era pequena. Lembrança mágica essa: ele chegava, eu já deitada, naquele frio horroroso; ele se aproximava da cama e fazia uma espécie de casulo com as cobertas. Cobria minha orelha e dizia que estava “fazendo quentinho”. Terna lembrança de um carinho que esquentava a alma.
Olhei cuidadosamente cada pedaço de retalho que formou a colcha da vida que hoje me envolve. Preciso coloca-la novamente no armário. Antes de fazê-lo, dou uma ultima olhada.
Nunca me senti tão órfã quanto hoje!



