terça-feira, 8 de julho de 2008

Lembranças




Qual adicto em recuperação, busco superar o vazio da sua falta. Procuro não pensar, não lembrar, não sentir. Mas de repente, quando me encontro descuidada, acontece. As lembranças brotam, jorram, me inundam. Imagens das suas expressões invadem meu pensamento: o sorriso, o parar pensativo, o choro contido, o gozo irrefreável, o olhar carinhoso. Procuro esvaziar-me dos sentimentos que isto traz; mas a dor vem, forte, intensa, avassaladora. Então me calo, me encolho. Já consigo não chorar. Somente respiro, fundo, e tento seguir vivendo.

Crédito de imagem: Natalia Zamkovaia

domingo, 6 de julho de 2008

Contemplação



Olho no espelho. A face que me fita tem algumas particularidades. A pele já não é tão lisa como há anos atrás. Trago ao redor dos olhos algumas graciosas rugas, conseqüências do ato de sorrir. Nestes mesmos olhos, brilhantes, é possível vislumbrar uma profundidade adquirida com os anos; eles espelham uma infinidade de sentimentos. As vezes me pergunto se é mesmo possível entrever tudo isto no meu olhar, ou se somente eu, por saber de minhas interioridades, os identifico.

Meu olhar desliza agora para minha boca. Nela não percebo muitas diferenças. É a mesma que prefere sorrir a ostentar rictos, quaisquer que sejam os motivos que poderiam levar a eles. Ainda a percebo sequiosa por beijos, mas muito mais contida nas palavras. Atualmente ela fala menos, mas o faz com mais precisão.

Observo meu queixo. Voluntarioso... mas isso sempre foi. Hoje, talvez, erga-se menos arrogantemente do que antes; entretanto, mostra a mesma força, empregada mais em situações que a requerem do que em embates juvenis, muitas vezes desnecessários.

Olho no espelho. Gosto do rosto que me fita. Gosto das pequenas marcas, emblemáticas que são de uma vida rica em história. Gosto da mulher por trás do rosto. Gosto de mim.


Crédito de imagem: Maria Pleshkova

sábado, 5 de julho de 2008

Navegando no Rio dos Sonhos

Maria Auxiliadora N. Figueiredo Nery é professora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Atuou como colaboradora, juntamente com outros professores do CPAN, acadêmicos e artistas da Cia da Lona e Cia de Teatro Maria Mole em um projeto belíssimo que estava sendo desenvolvido por alguns alunos junto as comunidades ribeirinhas do Rio Paraguai. O projeto, denominado “ Navegando no Rio dos Sonhos”, tinha como objetivo levar novas experiências a estas comunidades (comunidade e escolas), através de apresentações circenses, músicas, dança, teatro, palestras informativas sobre educação ambiental, oficinas de criação de arte, promovendo formas lúdicas de educação. Mais de 700 espectadores assistiram as 27 apresentações, abrangendo 127 famílias ao longo de 290 km do rio.As fotos abaixo mostram um pouco da belíssima paisagem pantaneira e alguns dos momentos das apresentações do alunos.

Projeto Navegando no Rio dos Sonhos

Clique sobre o album para ver as fotos.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Enrodilhada



Hoje me sinto cansada. Não é um cansaço daqueles que se desaparece facilmente, com uma boa noite de sono. Trata-se, na verdade, de um cansaço que está além daquilo que eu possa resolver por mim mesma; brota da alma, dói nos ossos, entorpece meu sentir. Diria que é um cansaço colecionado ao longo de uma vida, que a exemplo de um mosaico, foi sendo assentado pedacinho por pedacinho até formar o desenho final que hoje estampo. Estou em paz, mas paradoxalmente encontro-me destituída de energia.

Mergulhada na inércia, observo-me. Percebo-me constituída por uma infinidade de sentimentos diferentes, muitos dos quais algumas pessoas teimam em dizer excludentes. Sou assim: uma mulher de múltiplas facetas. Existe um lado meu que reflete, outro que chora, outro que brinca com a felicidade e despreocupação de uma criança que pula amarelinha. Nenhum deles é exatamente preponderante; eles se alternam, como aliás tudo na vida. E embalada pela certeza dessa alternância, simplesmente aguardo.

Crédito de imagem: Alex K

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Recônditos de mim



Sentada nas pedras, observo o mar atirar-se contra elas. Das águas saltam borrifos que me atingem o rosto. Seu cheiro impregnante ocupa as minhas entranhas. Acompanho com os olhos sua dança contínua.

Meus pensamentos mergulham na imensidão salgada. Vagam soltos, como pedaços de algas que se desprenderam da colônia. Assim também me sinto. Como alguém que há séculos atrás decidiu abrir mão da segurança limitante e lançou-se na imensidão. O mundo circundante adquire, a medida que me desloco, contornos diferenciados. Sentimentos se sucedem: alegria, medo, curiosidade, paixão, tristeza... tenho a minha disposição um sem fim de possibilidades. E assim flutuo... observo... sinto.

A paz envolve a minha alma.

Crédito de imagem: Nuno Milheiro