sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Contando tijolos


Quatro... cinco ... seis . Chove. Estranhamente o grande número de pessoas não se movimenta. Estão todos ali, parados, olhares incrédulos, aturdidos, chocados.

Onze... doze. Meu olhar vagueia pelos semblantes, meu pensamento alça vôo. Lembranças ocupam agora o lugar das fisionomias.

Dezesseis.. dezessete. Lembro-me do primeiro choro, da primeira vez que o fitei. Da sensação inexplicável de que algo não estava como deveria estar. Das percepções sem razão aparente que, de repente, foram confirmadas.

Vinte e um... vinte e dois. As pessoas se aproximam lentamente, falam o que não ouço, e se vão. Minha mente continua a viajar. Primeiro o vôo objetivo, depois todos os outros que se seguiram por infindáveis dias e, principalmente noites.

Vinte e nove... trinta. O primeiro sorriso, a primeira esperança. O início de uma jornada repleta de inúmeros : “Não sei”; “Nunca vi”; “ É a primeira vez que me deparo com algo assim”.

Trinta e cinco... trinta e seis. O olhar seguindo as luzes da árvore de Natal e minha constatação feita entre lágrimas: Sim, ele enxerga. O Natal que terminou no hospital. Rima mais besta, tão besta quanto a própria situação de não querer rimar, tão besta quanto a falta de rima da própria situação.

Trinta e nove... quarenta. Foi dada a largada da corrida contra o tempo. Dia e noite tornaram-se uma só coisa: uma tentativa desesperada de sobrevivência.

Quarenta e seis... quarenta e sete... quarenta e oito. O trabalhador se afasta. Está terminado.

Somos apenas eu, o braço nos meus ombros e o buraco, agora lacrado, a minha frente.

Dou-me conta de que minhas roupas estão secas. Chovia somente dentro de mim.

Viro e sigo o caminho, minha única opção.


Adeus, meu filho!

3 comentários:

paulo disse...

Por trás das palavras, o seu sentir. Impressionante a maneira com que suas palavras dão significado a sentimentos. E nos levam até eles num dialeto que só o coração conhece.Inexplicável, porém, claro feito água pura.

Jorge Alberto disse...

Este seu texto me fez lembrar certas passagens de minha vida. Seu estilo é muito bom.

Sérgio disse...

Me desculpa...

Estive ali te olhando...

Uma lagrima...

Mas não pude te abraçar...