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terça-feira, 8 de julho de 2008

Lembranças




Qual adicto em recuperação, busco superar o vazio da sua falta. Procuro não pensar, não lembrar, não sentir. Mas de repente, quando me encontro descuidada, acontece. As lembranças brotam, jorram, me inundam. Imagens das suas expressões invadem meu pensamento: o sorriso, o parar pensativo, o choro contido, o gozo irrefreável, o olhar carinhoso. Procuro esvaziar-me dos sentimentos que isto traz; mas a dor vem, forte, intensa, avassaladora. Então me calo, me encolho. Já consigo não chorar. Somente respiro, fundo, e tento seguir vivendo.

Crédito de imagem: Natalia Zamkovaia

domingo, 22 de junho de 2008

Gotas de felicidade


Eu tive, como toda pessoa normal costuma ter, dois avôs; no meu caso, digo que tive aquele do tatu e aquele do poço ( lembram disso?). O meu avô “do poço” foi uma pessoa que, sem dúvida, teve um papel dos mais determinantes na minha infância, na minha vida. Tenho lembranças maravilhosas com ele, desde que me entendo por gente. A primeira delas é sobre uma caixinha. Isso mesmo, uma caixinha.

Meus avós moravam um tanto afastados dos meus pais e meu avô costumava percorrer o caminho de uma casa a outra de bicicleta. Para poder me transportar, já que eu não passava de um espirro de gente, ele construiu uma caixinha de madeira, a qual prendia na parte dianteira da bicicleta, e lá íamos nós. Ele ia assobiando músicas espanholas, as vezes as cantarolava, e eu, minúsculo pedaço de gente, ia batendo palmas e seguindo seu ritmo.

Depois eles se mudaram para São Paulo e eu passei a visitá-los de tempos em tempos. Na casa deles vivi dias maravilhosos, pois ela oferecia tudo o que uma menina sequiosa de aventuras poderia desejar. Foi lá que cai no poço, mas foi lá também que me descobri uma princesa, tendo por castelo uma imensa ameixeira e por carruagem um magnífico pé de goiaba.

Acho que foi lá, também, que foram plantadas em mim duas sementinhas que brotaram e fazem de mim a pessoa que sou hoje : a semente da leitura e a do fascínio pela História. Durante algum tempo meu avô foi sapateiro, e sua sapataria ficava num cômodo na parte da frente de sua casa. Eu passava horas a fio naquele local, junto com ele. Costumava me sentar no chão e ele me dava para “ler” um exemplar de Seleções. Eu começava, então, a inventar minhas histórias, e ele ia participando delas e as direcionando. Foi assim que fiquei conhecendo um homem mau chamado Hitler; foi lá, também, que tomei conhecimento das grandes guerras e da Revolução de 1932. Foi com ele que aprendi a pensar sobre os porquês de comportamentos humanos que mudaram todo o curso de vida de milhões de pessoas. E isso tudo feito assim, “lendo” Seleções.

Ah! O meu avô do poço era um homem de pouco estudo, mas de muita cultura. A medida que eu crescia ele lia comigo os gibis, assistia meu programa predileto: Pim pam pum; depois passamos a ler juntos os jornais. Quando entrei na faculdade ele quase enlouqueceu: era final da ditadura e ele usava de todo seu empenho para calar a neta que ele ensinara a pensar. Sobrevivemos a ditadura, ele e eu.
Ainda hoje, quando penso nele, vejo-me imersa num sentimento de bem estar. Não sei onde ele está, no momento. Se no céu, deve estar rodeado de anjinhos, instigando-os a questionarem as leis que regem o Paraíso. Pensar nisto me dá uma enorme vontade de sorrir, enche o meu peito de uma felicidade transbordante e me dá a certeza de que ele não deve se arrepender de nenhuma das histórias que me ensinou.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Sobre orfandade




Lembranças povoam meu peito. Algumas boas, outras ruins. Algumas tristes, mas a maioria delas muito, muito engraçadas. Meu pai era uma pessoa dotada de um profundo senso de humor.A maior parte das lembranças que guardo estão envoltas em risos, gargalhadas. Não que não fosse sério; era-o até demais. Hoje percebo, no entanto, que o bom humor parece ter sido sua opção de vida.

Recordo-me de tantas passagens, de tantos ensinamentos. Concordo inteiramente com o que se diz sobre ensinar com as próprias atitudes e não com palavras. Ele era um homem profundamente bom. Não me lembro de ter presenciado alguma atitude maldosa de sua parte. Não era alienado; tinha senso crítico e por vezes externalizava opiniões que não eram do agrado geral. No entanto, não o fazia com maldade, nunca com o intuito de ferir alguém. Aprendemos desde sempre que podemos manter nossos pontos de vista sem ridicularizar ou diminuir aqueles que pensam diferente de nós.

Era uma pessoa integra, honesta, batalhadora. Tentou, a sua maneira, nos deixar o que tinha de melhor. Apesar de ter sido criado numa situação extremamente desfavorável, livros sempre foram prioridade na minha casa. Nós os tivemos desde muito antes de aprender a ler. Sempre fomos estimuladas a aprender, a estudar, a dar o melhor de nós em qualquer situação.

Não que não tivesse defeitos; ele os tinha, e muitos. As vezes suas atitudes nos colocavam em lados opostos do campo de batalha. Cansei de brigar com ele, de questioná-lo. Sei que fui dura, que o magoei, assim como ele também fez o mesmo comigo. Entretanto, posso afirmar que as batalhas travadas não deixaram marcas tão profundas quanto os dias de festa.

O exemplo de vida mais significativo que tive dele deu-se exatamente quando ele não estava presente. Ou estava, mas de forma passiva, por assim dizer. Durante as horas que antecederam nossa despedida final, dezenas de pessoas se aproximaram de mim e me contaram de coisas que ele havia feito por elas, coisas das quais eu nem suspeitava. Fiquei impressionada ao ver o quanto ele foi capaz de auxiliar, anos a fio, uma infinidade de pessoas, das mais diversas formas que se possa imaginar. E nunca falou absolutamente nada sobre isso.

Hoje senti uma saudade imensa. Tive necessidade de tirar a colcha de retalhos de dentro do armário. Envolvi-me nela, a exemplo do que ele fazia quando eu era pequena. Lembrança mágica essa: ele chegava, eu já deitada, naquele frio horroroso; ele se aproximava da cama e fazia uma espécie de casulo com as cobertas. Cobria minha orelha e dizia que estava “fazendo quentinho”. Terna lembrança de um carinho que esquentava a alma.

Olhei cuidadosamente cada pedaço de retalho que formou a colcha da vida que hoje me envolve. Preciso coloca-la novamente no armário. Antes de fazê-lo, dou uma ultima olhada.
Nunca me senti tão órfã quanto hoje!

terça-feira, 27 de maio de 2008

EmpoÇada




É interessante como um mesmo acontecimento pode, em fases distintas da vida, ser visto sob diferentes perspectivas.

Eu tinha dois anos de idade quando junto com um primo “pulava carnaval” sobre um velho poço desativado. A tampa de madeira, desgastada pela idade, cedeu, e eu mergulhei, sem aviso ou salva-vidas, num buraco de doze metros, com seis metros de água.

Minha avó, por um daqueles caprichos divinos, olhou pela janela no exato momento em que eu afundava. Pode, assim, impedir meu primo de se jogar atrás de mim ( se eu fui, ele também tinha que ir, não é ? ) e alertar meu avô para que pedisse ajuda.

Enquanto meu avô rodava o bairro em busca de auxílio , a vizinhança toda reuniu-se em torno do poço, onde minha mãe tentava, ao mesmo tempo, manter a calma e orientar-me para evitar que eu afundasse de vez.

Muitas lágrimas e promessas depois chegou meu avô com um poceiro, e eu fui retirada de lá, ilesa.

No dia seguinte eu, acompanhada de um séqüito de familiares e vizinhas , fui conduzida a Igreja da Penha, para pagar as inúmeras promessas que tinham sido feitas. Ao me ver ajoelhada rezando em frente ao altar ( pasmem: eu rezava com essa idade), com um sem número de pessoas chorando a minha volta, o padre da paróquia veio saber do que se tratava.

Virei celebridade! Naquele tempo ainda não havia televisão, de forma que o “meu “ milagre só foi noticiado nas rádios de São Paulo.

Durante anos da minha vida fui “aquela que caiu no poço”.

Esta história era, para mim, como aquelas que lia em La Fontaine, Monteiro Lobato e tantos outros autores que povoaram minha infância.

Anos depois, por razões que nem eu mesma sei explicar, tornou-se um fardo.

Lutei contra a sensação meio aterrorizante de submergir em momentos inesperados durante boa parte da minha vida. Gastei horas e uma pequena fortuna em análise para ver-me livre dela.

Dias atrás, conversando com um amigo, contei a história e ele ,mais do que prontamente, colocou:

- Você foi empoÇada!!!!!

Rimos demais.

Então me dei conta de que, em algum momento, eu saira nadando. Deixara para trás o poço escuro e, mais do que isso, tornara-me de fato uma sobrevivente.

Hoje sei, mais do que nunca, a força que tenho.

Fui, como disse meu amigo, empoÇada pela vida.

Causos da minha infância II




Meu avô sempre dizia que para lidar com roça é preciso prestar atenção em muita coisa. Não é só chuva ou praga. As vezes tem olho gordo, as vezes tem bicho maldito. Bicho maldito, segundo ele, é igual a tatu. Tatu é coisa do diabo. Quando começava a rondar a roça, secava toda a plantação. A única solução era matar o bicho, mas difícil mesmo era pegar. Tinha que ser de noite, quando o bicho saia, e tinha que ter no mínimo quatro homens de coragem, porque fazer o cerco é que era complicado. Se deixasse o bicho entrar no buraco não pegava mais. O buraco chegava até no inferno.

Uma vez apareceu um tatu lá na roça do compadre Antonio. A roça começou a praguejar e secar. Como as roças faziam divisa, acharam melhor que fossem todos juntos matar o bicho, senão ia queimar a plantação de todo mundo.

Uma noite combinaram e foram, todos com lampião, facão e terço. Sentaram no meio da roça para esperar, e quietos para o bicho não perceber. De repente, começaram a ouvir o tal. Foram levantando bem devagar, escutando para ver para que lado o maldito estava andando.

Eis que surge o tatu. Era ENORME !!!

Quando o viram, saíram na maior correria atrás dele. Era o bicho correndo na frente e eles correndo atrás. Ele, então, deu um pulo e entrou num buraco que tinha no barranco. Todo mundo parou, desconsolado. Até que um dos compadres, dizendo que aquilo não podia ficar daquele jeito, resolveu que eles tinham que ir cavando até achar o tatu... nem que chegassem na beira do caldeirão.

Começaram a cavar com as mãos mesmo. Das unhas ia saindo sangue, mas o importante era salvar a roça de todo mundo. Foram cavando, cavando, até que chegou no fim do buraco. Nada! o tatu tinha sumido.Ficaram um olhando para a cara do outro, abobalhados. Se puseram então a caminho de casa, rezando desconsolados.

De repente, quem cruza sossegado o caminho ? O tatu!!!

Quando o bicho passou andando, eles saíram desembestados atrás dele. Só que o tatu foi em outra direção, não mais para o buraco anterior. Estavam todos correndo atrás quando um deles, vendo um outro buraco no barranco,gritou:

- Ele vai para o buraco de novo.

Meu avô não teve dúvidas. Deu um pulo enorme. Se atirou no ar em direção do tatu e grudou-o pelo rabo, quando já estava entrando no buraco. Grudou sem largar. O tatu, sem poder fugir, virou para trás e olhando-os com os olhos mais feios que se possa imaginar, virou para eles e disse:


- Vamos parar com essa brincadeira aí atrás????


segunda-feira, 12 de maio de 2008

Causos da minha infância

Meu avô paterno era cheio de causos para contar.

Criado num sítio do interior de São Paulo, realidade e fantasia conviveram de forma harmônica, no seu cotidiano, durante toda sua infância e adolescência.

Quem certamente saiu ganhando com isso fomos nós, seus netos. Ele constantemente nos reunia a sua volta para contar passagens que, jurava, eram verdadeiras, e que a nós soavam ora incríveis, ora assustadoras.

Lembro-me perfeitamente de uma ocasião em que estávamos sentados em volta da mesa, saboreando a melhor sopa de legumes que uma avó é capaz de fazer, quando meu primo falou algo sobre lobisomem. Imediatamente começamos a rir e a dizer que lobisomem não existia.

Meu avô, sem titubear, disse-nos que existia sim, que ele mesmo já tinha visto. E acrescentou que lá para as bandas do sítio deles era muito comum que o dito cujo aparecesse.

Nós o olhamos com uma certa incredulidade respeitosa e ele, ao nos ver na incerteza, começou a contar de uma determinada noite em que estavam ele e os irmãos, sozinhos em casa. Meu bisavô tinha ido a cidade e só retornaria no dia seguinte.

Ele e os irmãos, já deitados, começaram a conversar e comentar sobre a aparição do lobisomem numa propriedade vizinha. Como uma história puxa outra, lá pelas tantas eles estavam apavorados, mas devidamente bem informados sobre todas as aparições recentes e não tão recentes do constante visitante.

Foi então que começaram a ouvir, ao longe, um barulho de correntes sendo arrastadas. O barulho foi se tornando mais forte ( e ameaçador) a medida em que se aproximava da casa.
Eles escutavam, aterrados, os gemidos entremeados de arquejos , cada vez mais próximos.
Ninguém sabia exatamente o que fazer. Correr? Esconder-se? Sumir?

Foi então que mais corajoso dos irmãos de meu avô aproximou-se vagarosamente da porta e, num ímpeto de coragem, gritou:

- Quer um prato de sal?

E uma voz respondeu de pronto, vinda do lado de fora:

- Que prato de sal o quê, fdp. Me ajuda aqui que a égua escapou!!

Caímos na risada.

Meu avô, sem perder a compostura, afirmou que daquela vez não era o lobisomem, mas que todas as outras histórias eram absolutamente verdadeiras.

Invenções ou não, o fato é que histórias assim tornaram mágica minha infância e eu as coleciono como verdadeiros tesouros que são.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Lembranças de infância








Se hoje em dia toda menina sonha com uma Barbie, na minha infância todas desejávamos uma Susie. Naquele tempo não havia a quantidade de apetrechos que hoje são acompanhamentos obrigatórios ( o namorado, o carro, a casa, etc). Bastava-nos a boneca e as roupas.

As roupas exerciam um fascínio impressionante sobre nós, pois nos permitiam transformá-las ( e a nós mesmas, por tabela), numa infinidade de personagens deslumbrantes. Como a variedade disponível para compra não era tão grande ( como também não eram os recursos para sua aquisição), passávamos tardes sem fim elaborando os mais belos modelos. Talvez nenhum deles passasse pelo crivo de Alexandre Herkovich mas, para nós, eram preciosidades incomparáveis. Além do mais, possuíamos uma fonte inesgotável de fornecimento de matéria prima: Tia Zilda, a melhor costureira que conheci até hoje.

A vida era, naquela época, de uma simplicidade absurda. Tudo o que se esperava de nós era que freqüentássemos a escola, fizéssemos o dever de casa e pronto. Liberdade total para ser o que éramos: crianças sequiosas por aventuras, por descobrir o mundo, por explorar todas as possibilidades de aprendizagem e brincadeiras.

Uma das mais marcantes lembranças daquela época foi resultante, digamos, da “coalizão” do que eu dizia acima. Minha irmã mais nova estava encantada com algo que aprendera na escola: um belo feijãozinho, se colocado num algodão umedecido, brotava e segundo a professora, se plantado, daria muitos outros feijões. Ela observava encantada a sementinha transformar-se em raminho, abrir folhinhas. Para nós, que já havíamos plantado nossos feijões, aquilo já não apresentava a menor graça, de forma que não prestamos a menor atenção, nem a ela, nem ao incauto feijão do qual ela cuidava com tanto desvelo.

E o feijão teria passado em branco, como certamente passaram milhões de feijões ao longo da vida estudantil de crianças de todo o mundo, se um dia não a tivéssemos encontrado, aos prantos, sentada no quintal, ao lado de uma quantidade considerável de montinhos de terra, dizendo que não havia brotado. Perfidamente, como só as crianças são capazes de fazer, ficamos inquirindo-a. Afinal, qual era o motivo de tamanha tristeza? Enquanto um lado nosso estava curioso, o outro aguardava ansiosamente o momento de desatar a rir. Afinal, ela era nosso alvo freqüente.

No entanto, daquela vez, o fato relatado fez com que nós todas chorássemos, menos por solidariedade e mais numa mistura de tristeza, indignação e raiva. Minha tão caprichosa irmã plantara, no intuito de nos surpreender, todas as roupinhas de Susie.
T O D A S !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Não brotaram, claro. Na verdade, a totalidade delas não pode ser salva.

Apesar das gargalhadas que hoje a história ainda rende, penso que duas lições aprendi com isso tudo. A primeira é que nunca, mas nunca mesmo, devo subestimar uma irmã mais nova, por mais inofensiva que ela possa parecer. A segunda é que, por mais tentada que me veja a continuar regando e cuidando de sementes, tenho que estar atenta, pois roupas de Susie tem o péssimo costume de não brotar.
Crédito de imagem: Brites dos Santos

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Contando tijolos


Quatro... cinco ... seis . Chove. Estranhamente o grande número de pessoas não se movimenta. Estão todos ali, parados, olhares incrédulos, aturdidos, chocados.

Onze... doze. Meu olhar vagueia pelos semblantes, meu pensamento alça vôo. Lembranças ocupam agora o lugar das fisionomias.

Dezesseis.. dezessete. Lembro-me do primeiro choro, da primeira vez que o fitei. Da sensação inexplicável de que algo não estava como deveria estar. Das percepções sem razão aparente que, de repente, foram confirmadas.

Vinte e um... vinte e dois. As pessoas se aproximam lentamente, falam o que não ouço, e se vão. Minha mente continua a viajar. Primeiro o vôo objetivo, depois todos os outros que se seguiram por infindáveis dias e, principalmente noites.

Vinte e nove... trinta. O primeiro sorriso, a primeira esperança. O início de uma jornada repleta de inúmeros : “Não sei”; “Nunca vi”; “ É a primeira vez que me deparo com algo assim”.

Trinta e cinco... trinta e seis. O olhar seguindo as luzes da árvore de Natal e minha constatação feita entre lágrimas: Sim, ele enxerga. O Natal que terminou no hospital. Rima mais besta, tão besta quanto a própria situação de não querer rimar, tão besta quanto a falta de rima da própria situação.

Trinta e nove... quarenta. Foi dada a largada da corrida contra o tempo. Dia e noite tornaram-se uma só coisa: uma tentativa desesperada de sobrevivência.

Quarenta e seis... quarenta e sete... quarenta e oito. O trabalhador se afasta. Está terminado.

Somos apenas eu, o braço nos meus ombros e o buraco, agora lacrado, a minha frente.

Dou-me conta de que minhas roupas estão secas. Chovia somente dentro de mim.

Viro e sigo o caminho, minha única opção.


Adeus, meu filho!