segunda-feira, 9 de junho de 2008

Abandonando moinhos




Uma briga feroz se desenrola dentro de mim.

Seria simplista demais dizer que o racional se digladia com o emocional. É muito mais do que isso. Existem momentos em que percebemos a necessidade de nos reorganizarmos, de abandonarmos velhos caminhos, velhos hábitos. Percebemos que as estradas que trilhamos estão se tornando becos sem saída.

A exemplo do que se faz num jardim, é chegado o momento da poda. Impossível não se angustiar frente a esta constatação. Apesar de necessário, podar implica em que se escolha o que vai ser deixado para trás. Implica, ainda, em se saber que durante algum tempo seremos obrigados a conviver com a falta dos ramos que foram subtraídos.

É necessário preparar-se para o encolhimento, para o retraimento. No entanto, não há outra alternativa, quando se percebe que a quantidade de seiva disponível não mais atende as necessidades primordiais. Há que se podar para sobreviver, para vicejar.

Como Dom Quixote, pareço travar uma luta incessante contra moinhos de vento. Estou cansada. É chegada a hora de aposentar Rocinante, de dar referências a Sancho Pança para que ele encontre outras atribuições.

É hora de seguir sozinha. De assimilar as amputações. De assumir as decisões. E aguardar as florações.


Tela de Pablo Picasso

19 comentários:

SÉRGIO disse...

Querida Lucia...

Os dragões viraram moinhos...

Sancho Pança e Dom Quixote devem seguir seus caminhos...

Não há mais lutas...

Mas, sempre um mas...

Dulcineia...

O amor sobrevive...

Viva o amor, viva os apaixonados!

Anônimo disse...

Lindo. Lindo. Lindo.
Não lido bem podas.
Sei que são necessárias. Mas são doidas.
Prefico encarar os "acidentes", quando os galhos caem por si só ou são arrancados por um raio.
Acho que é por isso que a floração demora. Estou sempre remendando os galhos.

Céus! Cadê meus sais?
Você está sempre mexendo comigo.
Vou traumatizar. kkkkk

beijos Lú
gosto dos seus textos
mas são outros Contos que não conto.

Etel

Lucia disse...

Sergio:

Os dragões viraram moinhos. Há que se reaver a própria sanidade e ir em frente.
Apaixonar-se faz parte do caminho. Apaixonamo-nos por tudo ao nosso redor. Você, meu lindo amigo, deve estar muitissimo apaixonado, neste momento, pela mais bela criaturinha que acabou de chegar ao mundo.
Que maravilha, Sergio! Parabéns!
Tenho certeza de que a pequena Cecilia tem ao lado dela os pais mais orgulhosos do mundo, os avós e tios mais corujas que poderiam existir..O avô estou vendo que só faltou sair dançando..rs. Pelo menos, acho que você não saiu dançando, saiu? rss
Beijos para você, e um especial para a Cecilia

Lucia disse...

Etel:

Precisa aprender a podar..rs. Lá vou eu matar " O menino do dedo verde"..rs. Olha, não podemos, por mais dolorido que seja, deixar ao acaso as decisões sobre a nossa vida. Esperar que os galhos caiam é isso: é deixar a cargo de uma eventualidade o controle de nós mesmos. Se podamos, assumimos e passamos pela dor de uma só vez. Pode ser ruim, mas é muito melhor do que vivenciar a dor gota a gota, sem ter controle sobre a forma como isso vai nos atingir.
Por isso, garota, compre uma tesoura de poda. E escrevaaaaaaaaaaaaaaaaa!
Beijos

O Sibarita disse...

Ô foi, Fia? kkk Pulou do barco? Ai Deus do céu! kkkk

É isso, quando o barco começa a fazer água e adernar é hora de abandonar, mesmo, perdendo tudo... menos a vida, a liberdade, o pensar.

O novo horizonte virá em sol aberto dos novos dias sem rempestades, sem ventanias ou amarras para navegar no oceano da tranquilidade e ai a timoneira olhará para trás e verá que o passado foi um aprendizado...

Valha-nos Deus! kkkkk

Porreta seu texto dona moça, o coração, é isso... kkk

bjs
O Sibarita

Anônimo disse...

OI minha querida e estimada amiga LUCIA.
Obrigado por sua visita ao meucantinho.
Olha amiga se vc leu mudanças está na hora de afzer isso com sua vida.
Mudanças.amiga.
Voltarei sempre e te espero mais vezes no cantinho da deusaodoya
Parabens por esse seu texto.

beijinhos mil.
Regina Coeli.

Anônimo disse...

Oi Lu,
Passei rapidinho pra dar uma olhadinha nos textos (e assim "saber" como está) e te deixar um beijo. Estão "maravilhosos" os dois últimos; Também achei ótima a escolha das gravuras.

Como te falei, um amigo (Rodrigo) faleceu dia 31, depois de ficar 10 dias na UTI.

Eu conheci o Rodrigo em 2006, e tive, como em poucas vezes, um afeto "imediato" por ele - Senti nele algo muito familiar.
Desde então tentei "estar por perto".
Em fevereiro de 2007 Rodrigo foi para um tratamento em São Paulo, que finalizou retornando para Tangará final de julho.
Infelizmente não pude esperar seu retorno e vim para Fortaleza. Nos falamos algumas vezes depois que vim para cá... e ele sempre dizia que estava tudo "muito" bem; Eu sabia que não era de "todo" verdade, mas não imaginei que fosse acontecer o quê aconteceu...
Me senti um pouco "culpada", mas acho que foi "reflexo" da imensa dor pela perda de um amigo muito amado.

Tenho rezado por ele.
Passei dias muito triste, arrazada... mas me recolhi, fiquei com minha família, passeei com meu filho final de semana, e agora estou "bem melhor"...

Eu estou assim... e você?
Pelo que parece, rs... refletindo sobre os cuidados com o jardim.

Ai!!! Precisamos conversar mais.

Um abraço bem grande querida amiga.

Te amo

Thereza.

Dora disse...

Lu,
Considero que viver seja um constante processo de podas,amputações,subtrações.Como também, nascimentos de novos ramos e um florescer que, embora possa não ser tão vigoroso e colorido, como nas primeiras estações das nossas vidas, ainda implicará em vida e construção. Portanto, conscientizemos (ainda bem) que viver é estar sempre propício a florescimentos e podas contínuos e constantes até que finde qualquer possibilidade de vida, de ar, de consciência.Até que cupins, fungos e a aridez destruam a raiz da grande árvore VIDA.
Vamos continuar lutando e trilhando caminhos, mas não nos adoencendo tanto.Se possível com muita saúde.Com muita consciência para que não nos transformemos em Dom Quixote com suas alucinações.

Beijos da
Dora.

Lucia disse...

Sibarita:

A gente tem que saber a hora de remar feito louco, mas também a hora de abandonar o barco, como disse você. É difícil demais nos darmos conta de que investimos muita energia em um barco que nós mesmos construimos mas que não tinha a menor chance de navegar. O mais sensato é reconfigurar as coisas e buscar novas formas de seguir viagem. Aliás, sou uma viajnete nata, de forma que vou gostar da aventura..rs
Beijos

Lucia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lucia disse...

Thereza:

Não sei o que dizer. Na verdade, não acho que há muito o que dizer.
Se estivesse ai, eu te abraçaria e deixaria chorar. Como não estou, só posso dizer que pode contar comigo.
Te amo muito, minha amiga querida

Jorge Alberto disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Jorge Alberto disse...

Acabei de ler seu post que, digamos, considero o mais demonstrativo do seu "eu", desde que você começou a nos brindar com seus textos. Expôr o íntimo é algo tão difícil quanto tentar entender a mente humana.

Uma coisa legal o seu texto me fez lembrar, ao falar em D. Quixote e Jardim. Me fez referenciar duas músicas, a saber: uma versão do Chico Buarque e do Ruy Guerra para (Man of La Mancha - Homem de La Mancha)

Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão

E a outra é uma música gravada pelo MPB4, para uma música do Tadeu Franco, chamada "Se meu jardim der flor".

Se meu jardim der flor
Colore minha saudade
No meio dessa cidade
Que a manhã clareou

Virá um beija-flor
Aqui, ali sem pousar
E vai entrar nos meus olhos
Só pra te encontrar

Dê asas ao amor
Que vive dentro de todo bom coração
Pro mundo ser mais bonito
Em cada palmo de chão.
10 de Junho de 2008 23:25

Anônimo disse...

...Existem situações para as quais não há muito o que dizer mesmo; Nós às vezes buscamos explicações para algumas coisas - mas nosso saber não pode - nem precisa alcançá-las.
Ler seu comentário me emocionou... e me fez chorar, como não tenho procurado fazer, rs.
O mais importante é saber que me abraçaria e isso me faz sentir acolhida, porque às vezes "falta" quem perceba o quanto algo dói dentro da gente...

Sei que posso contar com você e isto é muito importante.

Beijos e um ótimo dia pra ti.

Thereza.

Lucia disse...

Dorinha:

Quando somos mais jovens, a simples possibilidade de ter ramos é tão maravilhosa, em si mesma, que pouca ou nenhuma atenção prestamos ao tipo de árvore que somos. Ficamos tão esfuziantes que nos sentimos o tempo todo como o pé de feijão da história do João e o pé de feijão, mesmo que na verdade não passemos de um bonsai.
A maturidade nos transforma em árvores melhores, mais cientes do próprio tamanho, da capacidade de produzir sombra, de ser genese de flores e frutos.
Talvez por isso as podas sejam, nestas circuntâncias, tão necessárias e, ao mesmo tempo, tão doloridas.
É imprescindível, no entanto, não perder a capacidade de sonhar; ter a convicção de que se brotará. Isso, por si só, mantém a sanidade.
O resto, é vida que segue!
Beijos, minha querida.

Lucia disse...

Jorge:

Me emocionei ao ler o seu comentário. Ao escrevermos, como você bem sabe, nem sempre temos certeza de estarmos conseguindo colocar em palavras exatamente aquilo que se passa dentro de nós.
Ao ler sua referência a música Sonho impossível, soube que tinha alcançado meu objetivo.
Obrigada,Jorge. Foi muito especial.
Beijos

Lucia disse...

Thereza:

Fica quietinha e ouve o Chico cantar: " Vai passar..."
Beijos!!!

Lucia disse...

Olá, Regina:

Sim, eu li Mudanças.Foi até engraçado, pq eu tinha "mudado" aqui, aí cheguei lá e vc tinha mudado tb..rs
Mas mudar, em certas ocasiões, é essencial. E, como digo no texto, é a certeza de que as dores passarão e a vida irá ser bem melhor.
Beijos!!

Pati disse...

Oláaaaaa
Poxa,vc tá conseguindo se colocar nua aqui,desnudar-se simbolicamente através de palavras é muito difícil e vc consegue....a catarse tá acontecendo...esse seu blog serviria p uma terapia...rssss
Que bom,fico feliz por vc ao ver q vc resolveu encarar as mudanças dentro de ti como um processo definitivo...uma evolução que precisa ser feita.
Beijos e continue....vc vai longe...rssss
Eu mandei o cmentário antes sem me dar conta q tinha entrado de novo pelo outro endereço e ía entrar como anonima....rsss....aqui estou de novo,aceite este comentario...rsss